Ajudar: até que ponto é válido?
créditos: Drelaine.com

Ajudar: até que ponto é válido?

Costumo sempre analisar até que ponto é saudável oferecer ajuda - e penso assim relacionando atitudes corriqueiras. Esses dias presenciei uma forte campanha contra esmolas para flanelinhas de vagas de rua. Constantemente penso que, se pagamos pelas vagas de rua da prefeitura, não precisamos pagar para os flanelinhas - seja por medo ou para garantir que nossos carros estarão ali, intactos, quando retornarmos. Acho, sim, uma atitude, no mínimo, desencorajadora.

Assim vejo outros tipos de ajuda. Aquela que fazemos por algumas opções que não sejam exatamente a ajuda solidária. Em um mundo de compartilhamentos e trocas de experiências nas redes sociais, nós estamos o tempo todo tentando parecer corretos, claros e sinceros. Não que não sejamos, mas atualmente precisamos ser mais, mostrar mais, provar mais. Na realidade atual, conectados 24 horas todos os dias, todas as nossas atitudes são monitoradas. E nada de deslizes para não ser alvo de críticas na Internet!

Relaciono a ajuda com alguns pontos. Acredito que ajudar não pode ser algo que nos atrapalhe. Exemplo prático: quando você precisa dar, ou oferece para alguém uma carona, você tem algumas alternativas. Você pode oferecer a carona por estar na sua rota de deslocamento; ou você pode oferecer por solidariedade, mesmo que você se desloque completamente do seu caminho, mas ainda assim o faz por vontade própria. Você, muitas vezes, se vê numa roubada para não negar algo a alguém e se sentir egoísta ou não ser retalhado por aí.

Uma coisa que acho abominável são as pessoas que postam fotos de crianças doentes nas redes sociais perguntando “quantos likes essa criança merece?”. Fotos que não têm nenhum objetivo além do carimbo ‘eu ajudo’. Ou então para ganhar seguidores. Tenho visto que as pessoas estão se incomodando com isso, estão sem paciência para essas atitudes vazias.

Quer ajudar? Vá até um orfanato, ofereça algum tipo de colaboração, doações, seja voluntário. Vá a um asilo, ajude alguém a atravessar a rua, ajude seu filho a ler, a entender algo que está errado. Ajude os seus pais, pergunte se pode fazer algo que esteja ao seu alcance, que não te atrapalhe, que faça a diferença na rotina deles.

Existe uma enxurrada de gente tendo atitudes sociais sem nenhum propósito sólido. Blogueiros e celebridades vivem inventando ações e projetos com o objetivo único de serem julgados como sendo boas pessoas, mas no fundo visando obter mais seguidores.

Você nunca se viu ajudando alguém e se sentido meio idiota? Pensando: “eu ajudo alguém, mas está atrapalhando a minha vida”. Eu pratico isso no meu dia a dia, costumo me questionar o grau da ajuda e se ela será um problema para mim. Eu tenho uma filha pequena, que é muito agitada. Às vezes eu gostaria de ajudar mais os meus pais, me dedicar a algo social, ter outras opções de ajuda. Como o meu marido trabalha das 8h às 20h, fico com a responsabilidade da escola, das tarefas, do almoço... tudo depende de mim.

Mesmo trabalhando também, como mãe fico com essa parte. É cansativo, e quando tenho um tempinho para mim, procuro fazer algo que me realize, como uma atividade física ou a leitura de alguma coisa interessante. E isso não é nada mais do que uma hora do meu dia, geralmente no final da noite. Não me culpo por me doar essa horinha do dia, que quase sempre é lá perto da meia noite.

Sim, eu vou à academia quase 11 horas da noite. Sim, eu leio no banheiro para minha filha achar que estou lá por necessidade. Não me culpo. Fico esperando que ela cresça um pouco, que meu marido trabalhe menos, que eu tenha mais disposição ou qualquer outro fator.

Eu ajudo sendo honesta com meus princípios, respeitando o trânsito, educando a minha filha, reciclando o lixo, respeitando as pessoas mais velhas, ensinando a minha filha a comer melhor. É mais válido ajudar num coletivo do que ajudar para aparecer e, por trás, fazer tudo errado, como teclar no trânsito (e bater no carro da frente machucando alguém), desperdiçar comida, estacionar nas vagas para deficientes. A ajuda começa dentro da gente e é, também, para a gente. Só assim poderemos contribuir para algo muito maior e pleno!

 

Mariana Goulart



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