Intensidade
créditos: Dollar Photo Club

Intensidade

O sofá era revestido de uma espuma pouco densa, a cor do tecido era bastante vulgar e com os braços bastante sujos. Na cozinha sobre o fogão uma bebida quente feita de aguardente local preenchia uma caçarola, e os cobertores que habitavam desordenadamente a poltrona também não cheiravam rosas, mas Rebeca não se impressionava com nada disso, nem havia percebido que o apartamento era minúsculo e tinha aroma de gordura barata. A única coisa de qualidade era o som que estava num tom perfeito - ao som de Pearl Jam com a tão famosa ‘Black’, o que tornava todo o ambiente clássico.


Mas nada importava ali além da música e dos corpos que se esfregavam sem ao menos conhecer o conceito da palavra pudor. Afinal, cercados por quatro paredes, valia tudo. Esse era o lema de Bernardo, que suava a cada orgasmo de Rebeca. Ela gemia feito gata no cio.

A língua dele dançava ao ritmo de ‘Black’ e, quando o poderoso vocal aumentava a intensidade, Bernardo dançava entre as pernas da moça que ele havia conhecido há dois anos no show do rock 'n roll, na Pamplona. E quanto mais ousava a música, mais força o jovem colocava naquela preliminar, e Beca, como era conhecida, urrava de prazer.

Ele já havia amarrado as mãos dela para ouvi-la gemer e ter o corpo estremecido pelos gozos desvairados e sequenciais - porque era costume dela não suportar orgasmos múltiplos sem antes morrer. Bernardo subira vagarosamente uma das mãos e a amarrara na grade da janela, era um nó cuja técnica somava e alternava violência e docilidade.

Beca quase desmaiava, o outro braço ficou preso à maçaneta da porta. Segurava os cabelos escuros e lisos com violência mordaz e lambia feito um felino as partes que compunham seu rosto. Rebeca estava lambuzada de saliva de cigarro. Depois, puxava-lhe o cabelo novamente, com agressividade e carinho, alternando uma e outra prática. Mesmo que quisesse, por um minuto apenas, ser ativa no sexo, não havia nem tempo e nem espaço.

Bernardo não falava, não produzia uma única sílaba, estava com a língua ocupada em demasia. Para ele, ouvir os gemidos de Beca era algo que o levava ao clímax. Beca havia comentado certa vez que ele era viciado em sexo oral, viciado em praticá-lo. Sheila Alves, a amiga de infância, também sabia que Bernardo era uma raridade. E nesses encontros com Beca, ele ficava horas com a boca entre suas pernas – o que, para ela, era o ápice, uma vez que gozava ininterruptamente. Penetrava-a apenas quando ela já estava desesperada, rouca, suada, completamente à mercê do rapaz.

Ele amava fazer aquele corpo morrer de prazer. Ela correspondia quando era possível, num beijo, num cheiro antropofágico, entregando-se... mas era, sem dúvidas, a presa; e Bernardo, o lobo apaixonado no cio. E todos os horizontes e muitas viagens ocorriam naquele apartamento. Era no momento que Beca não aguentava mais que ele a penetrava, com força, enlouquecido, e ia invadindo aqui e ali. Só parava quando o rec rec da vitrola denotava claramente que a música havia acabado.

Eram horas transando ao som de Pearl Jam, e dezenas e dezenas de vezes em que Bernardo retomava a agulha reiniciando a canção e, junto com ela, todo o fervor que ainda estava por ser queimado naqueles lençóis.
 

 

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