Amar é flertar com a morte
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Amar é flertar com a morte

Cuidado com o que você deseja por que desejos podem se realizar, e nem tudo o que se deseja, se sustenta. Sexta à noite conversava com uma amiga sobre isso, uma amiga que sempre disse desejar um cara legal, alguém para viver um grande amor. O cara apareceu - e agora?

O grande amor talvez seja o sonho mais desejado entre as mulheres, 11 entre 10 mulheres desejam viver uma história assim. Desejam tanto que muitas vezes, o homem, ou mulher, ou outro personagem dessa história, é o que menos importa. Temos um sonho e um plano para realizá-lo e, até estarmos mais maduras e conscientes, buscamos alguém que se encaixe nessa ideia.

Discordo do Lord Byron quando afirma que ´na sua primeira paixão, a mulher ama o seu amante; em todas as outras, do que ela gosta é do amor.´ Nós, mulheres, primeiro amamos o amor depois o amante, só com o tempo e a experiência invertemos essa lógica. A maioria das mulheres, burras ou inteligentes, não importa, ama o amor - aliás, se existe um campo da vida em que a inteligência não faz a mínima diferença é no amor.

Mas voltando ao Lorde que não era burro mas que era homem - e por isso não sabe como somos apegadas à ideia de amor romântico e sofremos muito para abrir mão dessa fantasia. Mulher se apega fácil. Tudo que é bom, que cheira a amor, carinho e atenção, que tenha disso uma leve aparência, nós nos apegamos. E depois, para desapegar, é um sofrimento.

Muitos homens acham que sofremos por eles quando o relacionamento termina - o que talvez o ego masculino não os deixe perceber é que sofremos mais pela fantasia amorosa que vemos morrer do que pelo homem que se vai. É como se disséssemos ´ah, mais uma vez perdi a chance de viver um grande amor.´ Por isso não raras vezes olhamos para trás e descobrimos que o cara nem era tudo isso. Nem era mesmo por que ´tudo isso´ é o nome da fantasia romântica que o outro carregava.

Nós, mulheres, temos esse dom, de obrigar os homens a desempenhar papeis. Acho injusto com o parceiro. Fazer alguém carregar um sonho tão pesado, esse da fantasia romântica. A ideia de que sou a alma gêmea de alguém, de que alguém me completa, nos torna responsável pela felicidade do outro e isso acaba gerando infelicidade. É muito peso, e tudo o que é pesado gera culpa. Como diz a canção, ´meia culpa cada um que vá cuidar do seu´, felicidade também.

Alma gêmea não se separa e não ter a liberdade de se separar é claustrofóbico. E se no meio do caminho você se convencer que aquele que está ao seu lado não é sua alma gêmea, mas o outro não se convencer da mesma coisa? Culpa enorme! Como ir embora? O outro achando que você é a alma gêmea , sua partida vai representar a morte. O negócio então é ter alma trigêmea, quadrigêmea... Assim passamos a olhar para os finais de forma mais serena e não como o fim do mundo.

Mas nem pense que por tudo isso eu não acredito no grande amor, acredito sim! Mas ele passa bem longe de fantasias de salvação e do amor romântico. O grande amor pra mim vive em liberdade - que nada tem a ver com promiscuidade e sim liberdade de pensamento, de ir e vir, de alma inteira e não metade. Minha alma é inteira, por isso posso ser livre. Não levo a metade da alma de ninguém de arrasto e nem estou em busca do pedaço perdido. Liberdade é responsabilidade pelas suas emoções.

O grande amor é feito de encontros especiais e raros, de mágicas afinidades, de sensação de paz encontrada no corpo do outro. Da uma comunicação profunda e silenciosa que só temos com determinadas pessoas. Quando dois universos se encontram, quando tudo o que é valioso, profundo é tocado por tudo o que é valioso e profundo do outro, e que só o outro consegue tocar. Uma sensação que não conhece o tempo é como se já conhecêssemos o outro, por que o outro também faz parte de mim, esta em mim.

O grande amor sempre esteve,mesmo antes de chegar materializado no corpo do ser amado. O grande amor está dentro da gente, de dentro pra fora. O ser amado é a materialização de nossa intensidade, o grande amor é intensidade e é lindo. E quanto mais intensos somos, maior o mergulho e o amor que sentimos.

Viver um grande amor é assustador. Nenhum outro sentimento amedronta tanto quanto o amor. Todo mundo deseja isso, mas pouquíssimos sustentam viver uma história assim. Amar nos coloca numa posição de grande vulnerabilidade e fragilidade e por isso o amor é tão assustador. Se sentir desprotegido é uma sensação de morte. Amar é flertar com a morte, pois se tudo acabar é isso que vamos sentir, como se tivéssemos morrido. O grande amor é assustador e exige enorme coragem.

Eu espero, de coração, que minha amiga vença seus temores e seus fantasmas e consiga viver esta história. Tenho certeza que será transformadora, mesmo que um dia morra, mesmo que seja breve. Ninguém permanece o mesmo depois de viver um grande amor.

Nada mais será igual e se acabar, acabou, por que sua alma é quadrigêmea e outros grandes e diferentes amores virão. Basta manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.Desejo sorte e coragem para todos nós! Por que coragem não significa ausência de medo, mas sim enfrentar a vida apesar do medo.



Andrea Beheregaray



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