Fetiche: casamento

Fetiche: casamento

Ontem à noitinha eu vi Shortbus, um filme muito louco sobre sexualidade. É a história de uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo (sim), e, pra tentar dar um jeito nessa badtrip, começa a frequentar, com o marido, um clube underground de Nova York chamado Shortbus, onde todo mundo trepa com todo mundo, sem precedentes, sem restrições, como se não houvesse amanhã. Não é um filme essencialmente pornô, mas tem bastante putaria explícita, o que me deixou bem excitada. Terminei de assistir, fiz um replay da primeira sequência - uma colagem de várias cenas de sexo que culmina num cara gozando no quadro do Pollock logo acima da cabeceira da cama - e me masturbei. Depois de gozar, me dei por satisfeita, pensando que assim terminaria meu dia. Despretensiosamente, dormi. Mas é engraçado como o acaso pode ser estranhamente irônico.

Algumas horinhas depois, começo de madrugada, me liga justo o Rique. De todos os amiguinhos com benefícios que eu tenho, acho que ele sem dúvidas é o mais safado. É aquele tipo de cara que eu vejo mais na horizontal do que na vertical.  Nós quase nunca conversamos sobre nossas vidas pessoais. O diálogo, mesmo quando só verbal, se resume essencialmente a sexo: ele não faz ideia se eu tenho namorado, marido ou família, mas sabe que eu tremo de tesão em homem barbudo (o que, by the way, ele é). Se não sabe onde eu cresci, sabe a melhor maneira de apertar os meus mamilos na hora de gozar – alternando entre uma pressionada forte e um movimento circular com o dedo. Se nunca procurou saber qual é o meu livro preferido, já me fez vestir um espartilho, me algemou e dominou de quatro. Em resumo, o Rique pra mim é a personificação do fetiche, e é com ele que eu realizo qualquer fantasia. Se é fetiche, e só, nada mais justo que eu não saiba sequer seu sobrenome, e nem ele o meu. 

Conheci o Rique caminhando na rua. Flertamos, conversamos sobre qualquer amenidade, ele me “ofereceu uma carona” e me levou pra um motel – não tive objeções. Desde então, ele liga em torno de uma vez por mês, me busca em casa, e a gente vai direto pro mesmo motel. Nunca nas respectivas casas – eu nem sei onde ele mora, só conheço o carro, cujo banco de couro marfim do passageiro eu já molhei tantas vezes enquanto ele me masturba com aqueles dedos curtos, mas grossos.

Dessa vez foi diferente. Assim que eu entrei no carro – ele já abrindo a calça pra que eu caísse de boca durante o trajeto (ritualística comum) – resolvi sugerir uma mudança no itinerário: “Rique, hoje eu quero mais gente. Vamos pra um clube de swing?”. Todo aquele amor livre que eu tinha visto algumas horas antes no Shortbus me fez alimentar essa fantasia. E ninguém melhor que o meu fiel operador de fetiches pra me apoiar: “Você conhece algum?”. Esperta que sou, tinha procurado na internet enquanto esperava ele chegar, e descobri um de nome, escancaradamente sugestivo: Marquês de Sade.

Depois de uma rápida preliminar oral no carro, só pra não perder o costume, chegamos. Um pequeno toldo vermelho acima de uma porta de madeira, velha e corroída, com uns rococós entalhados de pretensão art nouveau. Ao lado, o interfone – e só. À primeira impressão, o clube poderia ser confundido com qualquer um dos bordéis que pareciam existir ali.

Quem falou ao interfone foi o Rique. Do outro lado, uma voz grossa nos informou o valor da entrada: R$50 por casal. À nossa confirmação de entrada, o aparente dono da voz veio nos atender: um rapaz franzino e careca, pouco menor que eu. Da porta, depara-se direto com um lance de escadas estreito, no qual fomos guiados em silêncio pelo host. Nos últimos degraus, o Rique pegou na minha mão, talvez pela primeira vez fora da cama, e disse: “Vamos brincar de casal. Para todos os efeitos, somos unidos pelo matrimônio hoje”. A ideia de ser casada naquela noite, de dividir meu homem com outras mulheres e ser compartilhada por outros maridos e pais de família me deixou automaticamente molhada. O safado do Rique sabe exatamente a fórmula pra me deixar com tesão...logo que terminamos de subir, peguei discretamente no volume da calça dele. Estava grande.

Deparamo-nos com um cômodo escuro, iluminado por arandelas simples de vidro vermelho. A música parecia Portishead, só que com uma fórmula mais forçada, numa tentativa óbvia de criar um ambiente sexy-lounge. As paredes eram de um vermelho desbotado. Alguns sofás brancos e cinzas tomavam o pequeno espaço, onde alguns casais bebiam cerveja ou algum drink.  Ao fundo, um bar, ao lado do pole dancing vazio “A stripper não veio hoje”, explicou o host. Se em Shortbus o clima é a princípio mais festivo, ali no Marquês de Sade percebe-se certo constrangimento ambientado: os casais se entreolham, conversam pontualmente, são discretos. Não era bem o que eu procurava.

O Eduardo, rapaz que nos recebeu, solícito, mas reservado, havia percebido que era a nossa primeira vez na casa e fez um rápido tour pelas principais áreas. À direita do bar-lounge, um corredor estreito com seis cômodos: “São quartos para alugar, caso o casal ou o grupo prefira ficar num ambiente mais intimista”. Também não era exatamente aquilo que eu queria...se fosse pra alugar quarto, mesmo que com sexo grupal, eu teria chamado outros amigos e teria ido pro motel com o Rique. Perguntei para o rapaz “Mas não existe uma área mais ‘livre’?” – “É onde vamos chegar agora”, ele respondeu.

Ao final do corredor, mais um lance de escadas, que desce. “Finalmente, lá embaixo é o labirinto dark, onde as coisas acontecem com mais abertura”, disse o Eduardo, com uma risadinha de canto de boca. “Labirinto dark” é uma coisa que, com toda a diversidade da minha experiência sexual, eu nunca havia ouvido falar. O que esperar? Olhei o Rique, aquela cara de safado, franjinha morena caindo na testa, barba cerrada...ele pegou na minha mão e foi me guiando pela escada abaixo, como se conhecesse muito bem a planta do lugar. Mal me deu tempo de agradecer o Eduardo (que tinha seu charme, caso quisesse um agradecimento mais consistente...).

Chegamos num espaço complexo, cheio de entradas, mini-corredores e níveis diferentes. As divisórias de madeira e as faixas de luz no chão que indicavam os caminhos, iguais aos filetes de luz de um cinema ou de um avião, davam a sensação de estar num estábulo high-tech.  Todo o ambiente tinha uma sonoridade única: um coro homogêneo de gemidos, gritos, urros e sussurros, ritmados pelas batidas descompassada da penetração (de várias penetrações). Buracos nas paredes nos permitiam ver o que acontecia nas cabines, cada qual iluminada parcamente por um lampião. No primeiro que espiei, uma loira deliciosa, bem magra e definida, cavalgava num cara, que estava num protótipo de cama improvisada, enquanto lambia os seios enormes de uma morena, em pé. Um outro rapaz assistia e se tocava. Imaginei que ele fosse o marido da loira - muitos homens nem fazem questão de participar, mas só de ver a mulher sendo dominada por outro casal.

De cara, eu já fiquei fascinada naquela cena. O Rique percebeu a minha excitação e, impetuoso do jeito que é, começou a me pegar por trás. Como o buraco na parede era mais ou menos na altura do peito, eu tinha que ficar um pouco reclinada pra assistir a minha sessão pornô presencial e exclusiva. Dessa forma, tudo ficou mais fácil pra ele...enquanto pegava forte nos meus peitos com a mão esquerda, ele abaixou a minha saia, colocou a camisinha e já começou a me comer ali mesmo.

Meus gemidos logo entraram no coro sinérgico, e foram prontamente percebidos pelos quatro protagonistas do meu filme. O ritmo do sexo começou a me fazer involuntariamente balançar aquela fina parede que me separava deles. O suposto marido voyeur da loirinha, um rapaz muito branco, musculoso e loiro, do qual eu só conseguia ver o ombro tatuado, me olhou pelo buraco e sorriu. De repente, ao estender a mão, começou a abrir a porta (uma tábua de madeira com dobradiças), que ficava ao lado dele. O Rique me endireitou à esquerda e empurrou pra dentro da cabine – mas não saiu de mim.

Interagimos, sem dizer qualquer palavra. Meu “marido” me deu a mão enquanto ajoelhava e começava a chupar a morena peituda. Enquanto isso, beijei, quase estupefata de tesão, a loirinha que continuava cavalgando no moreno deitado – agora eu conseguia vê-lo melhor. Era mulato, peludo, de cabelo raspado e cavanhaque, cara de amante latino. Beijei-o também, e em seguida abri minhas pernas em sua cara, pra que ele me chupasse enquanto eu beijava a mulher que ele comia.

O que aconteceu a partir dali se confunde na minha memória, tamanha a intensidade de detalhes. O Rique comeu as duas moças, e por um momento ficou só com elas, enquanto eu passei a me divertir com o moreno, em várias posições diferentes. Dada outra ocasião, as mulheres se revezavam para estar entre os dois homens – um pela frente, o outro por trás. O loiro forte realmente só olhava, sentado, sorrindo – e cheio de tesão.  Ao final, demos um show de feminilidade: as mulheres fazendo sexo a três para seus respectivos maridos, que agora estavam todos na condição de voyeur. Numa cadeia de sexo oral, gozamos as três.
Eu, como a protagonista de Shortbus, senti como se nunca antes tivesse tido um orgasmo.

Logo depois, o Rique me beijou, de uma maneira tão intensa e carinhosa, como ele sempre faz depois de uma noite de muita fantasia, como só um marido apaixonado pode fazer. Mesmo que o seu marido não saiba o seu sobrenome, mesmo que o casamento seja o maior dos fetiches que você já realizou.



Stephany



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